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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Salsa Clássica


Héctor Lavoe - De Ti Depende (1976)
CD Apreciação: 9,0 / 10
Depois de uma fase inicial em que foi solista da orquestra de Willie Colón, Héctor Lavoe aparece à frente da sua própria orquestra. Esta, em pouco difere da anterior. O que se passou foi que Willie Colón cedeu-lhe a direcção, dedicando-se a outros projectos. Alguns choques pessoais causaram este afastamento, como é mostrado no filme El Cantante. Mas não chegou a ser uma ruptura. Com efeito, Willie assegura-lhe a produção das gravações e a sonoridade continua a ser a mesma. 
Este é o segundo álbum desta fase. A voz de El cantante de los cantantes está na plenitude e o envolvimento orquestral está à altura. Temos salsa da mais clássica, com o atractivo adicional de estar entremeada por boleros, onde a voz acentua o seu lastro melancólico. Mas o tema mais carismático é Periódico de Ayer. É como que a quinta-essência da salsa. Letra e música são do portoriquenho Tite Curet Alonso, o mesmo que compôs o bolero Puro Teatro, celebrizado por La Lupe. Do mesmo modo, trata-se de um tema de amor em plano de despeito canalha. Aliás, a voz de Héctor tem o adequado travo canalha... A orquestração é espectacular, assente em metais e ritmo sobre um fundo grandioso. Daqui se retirou o trecho que foi utilizado para o menu da edição em DVD de El Cantante. De notar, finalmente, que neste álbum estão presentes outros temas assinaláveis, como Felices Horas, Vamos a reír un poco e Hacha y Machete. É um marco na história da salsa.

sábado, 14 de novembro de 2009

México Profundo


Paquita la del Barrio - Taco Placero (2001)
CD - Apreciação: 7,5 / 10
A notoriedade de Paquita la del Barrio adveio da interpretação de temas com letras que são um discurso de imprecações anti-machistas numa tónica desbragada, às vezes parodiando com alusões de cariz sexual. É curioso, pois parece que se transfigura quando canta, sendo, fora do palco, do mais discreto e convencional. Além desta nota pícara, há uma outra não menos marcante: o estilo musical que sustenta discurso e pose, o qual oscila entre cabaret e mariachi, mas sempre em plano demodé. A maior parte dos temas com letras pícaras são da autoria de Manuel Eduardo Toscano. Supõe-se que, para além da inspiração de autor, deve haver nas tradições populares mexicanas um vasto campo inspirador para tão corrosivo "escárnio e maldizer"... Mas Paquita insere-se também numa linha mais convencional como demonstra a parte, de facto, dominante no seu repertório, que é constituída por clássicos rancheros.
Este álbum inclui dois dos mais carismáticos temas de Manuel Eduardo Toscano - Taco Placero e Rata de Dos Patas - este último é um bizarro desfiar de insultos soezes. Do mesmo autor, deve-se também mencionar Nadie Perdona el Éxito, que é uma imprecação contra os invejosos. Contudo, sem perder de vista a mais-valia da chancela de Toscano, quem é apreciador de rancheras valorizará também a interpretação de temas convencionais. É o caso do clássico Paloma Negra, interpretado com a contundência expressiva que é bem peculiar a Paquita. O culto em torno desta diva, em contra-tendência com modelos dominantes, não deve, portanto, ignorar os seus intrínsecos méritos de intérprete de rancheras.

sábado, 17 de outubro de 2009

Puro Teatro: O Bolero Hardcore (1)

La Lupe - Laberinto de Pasiones (1992)
CD - Apreciação: 7, 5 / 10
Este álbum foi editado no mercado espanhol em plena onda revivalista de La Lupe, onda que foi impulsionada por um dos filmes de Almodóvar, que incluiu o bolero Puro Teatro na banda sonora. Tem um texto do jornalista Diego Manrique que resume a acidentada vida da artista. É uma antologia que inclui os temas mais conhecidos: três boleros de Tite Curet Alonso: Fijense, La Tirana e Puro teatro. Destaque-se ainda o bolero Que te Pedí, dois bogaloos (Fever e Que Bueno Boogaloo), assim como a famosa guajira Guantanamera. Acima de todos paira, de facto, Puro teatro. Discorre sobre uma letra que se desenvolve como insulto inspirado pelo despeito amoroso, ao estilo canalha de Curet Alonso. Em cima disso (que já não é pouco...) temos a interpretação arrebatada, bem ao jeito de descaradona mulata cubana e que consiste numa tonalidade vociferante que carrega as cores de denso melodrama. Os boleros de La Lupe são de uma classe especial: violentos, febris. Puro Teatro é o melhor exemplo. É, digamos, o must do hardcore bolero.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Camarón, uma Lenda


Camarón de la Isla - La Leyenda del Tiempo (1979)
CD - Apreciação: 8,0 / 10

Camarón de la Isla (José Monge Cruz) foi a última grande figura do flamenco. A sua morte prematura cortou abruptamente uma carreira fulgurante, alcandorando-o à categoria de mito. Tinha uma voz genuinamente flamenca, bem servida de garra. Além disso, a sua carreira assinalou alguns marcos na evolução do flamenco. Com efeito, esteve presente em projectos inovadores, ao lado de guitarristas como Paco de Lucía e Tomatito; deu a sua voz à experiência de pôr poemas de Federico García Lorca em acordes flamencos, como sucedeu com La Leyenda del Tiempo, o tema que dá título a este álbum. É uma gravação emblemática na afirmação do nuevo flamenco, pelo que significou de ruptura em arranjos instrumentais. Se já anteriormente, com Paco de Lucía, havia sinais inovadores, sob a orientação do produtor Ricardo Pachón tem aqui ousadias radicais. Envereda-se por uma linha de fusão com rock, que doravante não voltará a ser retomada tão nitidamente. Além do já mencionado tema, destaque-se ainda Volando Voy, uma espécie de rumba psicadélica e o mais tradicionalista mas intenso Bahía de Cádiz, umas alegrías cuja contida modernidade é conferida pelo teclado de órgão e uma bateria sublinhando o compasso das palmas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ceará - Andaluzia

Raimundo Fagner - Traduzir-se, Traducir-se (1981)
CD - Apreciação: 7,5 / 10


Que relação pode haver entre o Brasil e o flamenco? É óbvio que pouca. Contudo, o cearense Raimundo Fagner faz aqui um álbum que pode ser catalogado como nuevo flamenco. De facto, em rigor, isto é válido para cerca de metade dos temas. O resto é um repertório mais próprio de Fagner, mas com uma incursão invulgar: o poema de Florbela Espanca, Fanatismo, que, aliás, é o tema de abertura e com aparato...
É um álbum mestiço, mas dominado por um astral flamenco, eloquentemente enunciado pela pose de Fagner na foto da capa, com sombrero andaluz, em plena Plaza Mayor de Madrid (só faltava em vez do cigarro, um puro...). Parte dele foi produzido e gravado em Madrid, com a participação de Mercedes Sosa, Manzanita, Joan Manuel Serrat e Camarón de la Isla. Todos interpretam duetos com Fagner em temas marcantes das suas carreiras: Mercedes Sosa - Años (de Pablo Milanés); Manzanita - Verde (de Lorca); Serrat - La Saeta (de Antonio Machado); Camarón - La Leyenda del Tiempo (de Lorca). Diga-se que algumas destas versões talvez superem os originais... Mas não fica por aqui. Trianera é um tema de ressonâncias flamencas que se estende por mais de sete minutos, quase em roda livre.
Fagner nasceu no Ceará e é filho de um libanês e de uma índia. Para o Nordeste nos finais do século XIX e inícios do século XX afluiram imigrantes da Turquia, Síria e Líbano, popularmente conhecidos como turcos ou mascates (não esquecer seu Nacib, de Gabriela...). O cantor justifica a sua atracção pelo flamenco, pela ascendência paterna. É uma crença muito difundida essa, a das influência árabe no cante, mas, na verdade, ela foi menor do que se possa crer... O certo é que a sua voz desgarrada se adapta bem ao género e que esse sua aptidão e gosto proporcionou um álbum original.

sábado, 19 de setembro de 2009

Doce Viver


Emílio Santiago - Bossa Nova (2000)
CD - Apreciação: 6,5 / 10

A música brasileira teve sempre ampla difusão por cá. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proporcional à da origem. É este o caso de Emílio Santiago, um intérprete negro. Apesar das fortes influências africanas na música brasileira, os negros não abundam tanto quanto se poderia esperar na
MPB.... Nos anos 60 e 70 destacou-se Jair Rodrigues; nos anos 70 e 80, Milton Nascimento e Gilberto Gil; nos anos 80 e 90, Djavan. Em todo o caso, estes protagonistas não têm nas suas vozes o travo distintivo da negritude como sucede com Emílio Santiago. Ora, a voz quente e aveludada deste cantor combina magnificamente com a bossa nova e o samba-canção e não surpreende, portanto, que no seu repertório haja constantes incursões nestes géneros.
Nos finais do anos 80 e início dos anos 90 Emílio Santiago editou vários álbuns que constituíram a série Aquarela Brasileira, onde se espraiou por clássicos da bossa e do samba-canção. Foi um filão nostálgico, comercialmente compensador. Sucede que esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. A sistemática utilização do medley e de arranjos convencionais eram a sua imagem de marca. Em contrapartida, os últimos álbuns já reflectem conceitos de produção mais refinados. É o caso deste. Continua a explorar a linha nostálgica, mas de um modo temático coerente, orientado para a bossa-nova, com orquestrações sofisticadas que envolvem da melhor forma o veludo quente da voz. São todos temas conhecidos e alguns consagrados. Não se pretende fazer nada de original, mas apenas refazer pela enésima vez, com virtuosismo e glamour, a conhecida receita dos génios criadores da bossa-nova, mas com uma voz que acrescenta algo... É uma fórmula que permite saborear o que se pode traduzir pelo título da mais soberba das peças aqui incluídas, Doce Viver, de Nelson Motta.


sábado, 5 de setembro de 2009

Testemunho da MPB (2)

Vários - Noites Tropicais (2000)

CD - Apreciação: 6,5 / 10
Noites Tropicais tem um correspondente em duplo CD. É a melhor antologia da MPB que conheço - são muitos os grandes temas aqui incluídos, os quais cobrem todas as fases e tendências. Apropriadamente o primeiro tema é o mítico Desafinado, de João Giberto, mas, de facto, ao longo dos dois CDs há oportunidade para nos espraiarmos pelas várias tendências da MPB e para, inclusivamente, nos adentramos em algo muito menos interessante, mas importante, o rock brasileiro. Além do mais, a apresentação é soberba e está graficamente ajustada ao livro. O objectivo de funcionarem em complemento foi atingido.

Das Vísceras

El Pele / Vicente Amigo - Canto (2003)
CD - Apreciação: 8,0 / 10
Que se poderia esperar da junção destes dois cordobeses, Vicente Amigo e El Pele, respectivamente, uma das melhores guitarras e uma das melhores vozes flamencas da actualidade, senão algo de notável? O que aqui há de moderno é relativamente discreto, mas eficaz. Contudo, o que é decisivo diz respeito à alma do flamenco - há aqui momentos de duende. A voz rasgada de El Pele e o virtuosismo de Vicente Amigo representam em nível eleveado o espírito e da técnica do flamenco e, por isso, neste álbum temos momentos de cante jondo, como no tema 7, Aconteció (Seguirilla). Aí podemos ser conduzidos ao transe através da voz de El Pele, no seu estado mais selvagem, sublinhada pelos acordes da guitarra e pela cadência rítmica da percussão. É uma música que parece sair do interior da terra ou das vísceras do cantor. Este álbum é uma via de aproximação ao flamenco mais puro.

Hipertensão


La Húngara - Mi Sueño (2009)
CD - Apreciação: 6,0 / 10 Qualificar este CD como de flamenco será acintoso para os amantes do arte jondo. É um produto que vem do extenso e fluído território periférico do flamenco, que poder ser designado como flamenquito. Os acordes de guitarra, o tipo de vocalização e a garra interpretativa permitem estabelecer a filiação.
La Húngara - impossível encontrar lógica para tal pseudónimo - é uma andaluza, de Écija, província de Sevilha. Tem boa voz e uma garra para dar e vender. Já criou um estilo e um vasto conjunto de
fans - los hungareros... É um flamenquito assente em artifício techno que jorra pesadamente dos teclados e da percussão. É, um género que não andará longe de poder ser considerado análogo ao nosso pimba, porém, simultaneamente, mais produzido e castiço. No caso de La Húngara, pelo menos neste álbum, deve-se dizer ainda que as letras fogem do convencional. Na verdade, embora sem especial valor lírico, canta-se o desamor, o despeito e, até, temas socialmente relevantes como a violência doméstica. Mas, acima de tudo, a garra interpretativa de La Húngara é verdadeiramente digna do lugar-comum salero. Diria mesmo, que, com tanto sal, temos hipertensão garantida...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Oggi ti amo di più...

Mina - Oggi ti amo di più (1988)
CD Apreciação: 10 /10

Quem pretender adentrar-se na canção italiana deve começar por Mina Ana Mazzini. Desde 1958 que tem percorrido uma extensa carreira com particularidades que se ajustam a uma certa imagem de italianidade... Elegância, versatilidade, teatralidade podem definir tal imagem, incluindo o ponto de mistério que envolve o seu abandono da cena artística desde finais dos anos 70, no auge da popularidade. Contudo, a partir da cidade suíça de Lugano, onde como que se exilou, não deixou de gravar e editar todos os anos. Hoje em dia, poucos artistas terão discografia tão extensa. Tal ausência/presença mitificou-a ainda mais junto do público italiano.
De fora não é fácil aperceber a projecção de Mina em Itália. Ajudará, quanto muito, a memória que alguns ainda terão dos programas musicais da RAI nos anos 60 e inícios de 70, onde Mina era figura de destaque. 
Sob o vigente império do mainstream, como produto exportável, Mina não tem grande viabilidade comercial. Por cá, é difícil encontrar algum CD de Mina. Uma boa iniciação será através de uma antologia, mas as que se conseguem encontrar não cobrem mais do que os anos 60. Ora, sucede que a partir de 1967 Mina passou a gravar para a sua própria editora, PDU, direccionada para o mercado italiano e suíço. A grande maioria da sua discografia é, portanto, desta editora, incluindo as melhores antologias. É claro que um bom minófilo tende a torcer o nariz a qualquer antologia, encontrando motivos de escândalo por se deixar de fora um punhado de temas da sua predilecção. Ainda assim, Oggi ti amo di più é uma das mais consensuais. Basta dizer que começa, com três preciosidades consagradas: Grande, grande, grande; L'Importante e' finire; Ancora, ancora, ancora - esta última, note-se, nunca saiu em álbum de originais. Tem, ainda, outra mais-valia: a capa. Com efeito, se bem que o esmero visual seja uma constante dos seus álbuns, esta capa é de um invulgar romantismo. Ajusta-se na perfeição ao título, também ele de ressonância romântica.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Anos 60, Rive Gauche: Nino Ferrer

Nino Ferrer - Nino Ferrer (2001)
CD - Apreciação: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Nino Ferrer nasceu em Génova, Itália, mas fez carreira em França, apesar de ter feito também, marginalmente, uma carreira no seu país natal. Nos anos 60 obteve sucesso com temas como Les cornichons, Agata e Mirza, exemplos da pop frívola desses tempos. Mas, desde o início era patente a sua versatilidade, pelo carácter jazzy de algumas das suas composições e versões, pela sua vocalização em estilo soul e pelo seu talento em compor baladas melódicas. Com efeito, foi o autor de C'ést Irréparable, que sairia do anonimato como Un Anno d'Amore, versão italiana de Mina e, posteriormente, ainda mais, com Luz Casal cantando a versão espanhola, Un ano de amor, num dos filmes de Almodóvar. A partir dos anos 70, procurou caminhos vanguardistas e explorou outras áreas artísticas, como a pintura. Espírito atormentado, acabou por se suicidar, deixando grata memória entre os seus fans.
Esta colectânea ilustra a trajectória da sua carreira francesa. Por aqui se pode ver como evoluiu, de um modo que o levaria a um experimentalismo difícil de definir, mas, em todo o caso, abraçando géneros distantes da simplicidade e alegria pop dos anos 60. Não é um simples CD, já que este está integrado num pequeno livro com documentação sobre o artista e excelente grafismo.

domingo, 23 de agosto de 2009

Bolero em Catalão

Moncho - On és la Gent? (2003)
CD - Apreciação: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Desde há uns anos que Moncho tem vindo a fazer gravações em catalão, intercaladas com as que continua a fazer em castelhano. Ao mesmo tempo, sem abandonar o bolero, tem-se abalançado por géneros afins. Aqui surge a interpretar versões em catalão de três conhecidas canções italianas: Grande, Grande, Grande (Meva, Meva, Meva), Parole, Parole (Paraules, Paraules) e Caruso (T'Estimo Tant). As duas primeiras, de Mina; a última, de Lucio Dalla. Além disso, alarga o seu repertório de versões de Joan Manuel Serrat com Pare e M'en Vaig a Peu. Mas, acima de tudo, há que destacar um tema inédito ou, pelo menos, pouco conhecido, Ningú com tu! Sublinhe-se que é um dos mais bonitos do seu repertório em catalão. É, enfim, mais um álbum que consolida o renascimento da sua carreira. Com os seus dotes interpretativos e produções à altura, o veterano Moncho é uma das mais importantes figuras do cenário actual do bolero.

El Gitano del Bolero

Moncho - El Arte del Bolero (2007)
CD+DVD - Apreciação: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Moncho é diminutivo de Ramón e, neste caso, é o nome artístico de Ramón Calabuch, cigano barcelonês, conhecido como El Gitano del Bolero. Nunca esteve propenso para o flamenco ou para a rumba, mas antes para o... bolero. Nos anos 70 atingiu alguma notoriedade com gravações que são uma referência no seu género. Nos anos 80 caiu no esquecimento, passou de moda. Ressurgiu nos anos 90 com novas gravações, embora produzidas com arranjos um pouco melosos. Ultimamente tem vindo a fazer gravações com um nível de produção superior, seguindo duas vias: por um lado, a tradicional, continuando a desbravar o território do bolero puro e duro; por outro lado, a inovadora, cantando boleros ou canções bolerizadas em catalão, incluindo temas de Joan Manuel Serrat.
Este é um dos seus últimos álbuns, que confirma uma trajectória ascendente. Desta feita, tem a colaboração de vários artistas da cena flamenca, enquanto o repertório é constituído por boleros que havia gravado nos anos 70. Participam, como pares de dueto ou instrumentistas, Diego el Cigala, Jorge Pardo, Lolita, Parrita, Tomatito, entre outros. A opção foi, portanto, fundir flamenco e bolero, algo que nunca tinha feito. Resulta numa mistura quente, na maior parte dos temas, dominada por uma sonoridade rumbera - algo irónico, tendo em conta o título, El Arte del Bolero. Os arranjos são excelentes e a voz de Moncho nunca suou tão expressiva na sua tonalidade agridoce, tendo aqui mais uma demonstração de como as suas qualidades transcendem o bolero. De facto, este álbum veio dar mais sentido ao apodo El Gitano del Bolero. Para tornar o empreendimento exemplar, refira-se ainda que o DVD tem um documentário que explica como as gravações foram feitas e apresenta os artistas convidados.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Edith Piaf

Edith Piaf - Platinum Collection (2007)
CD - Apreciação: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Esta colectânea de Edith Piaf é constituída por 45 temas divididos por 3 CDs. Para além de abranger os temas mais importantes, tem notas informativas sobre cada um e uma breve resenha da sua vida e obra. Saiba-se que há 2 edições integrais das suas gravações: uma, luxuosa, ligeiramente acima dos 100€ e outra, minimalista, por um incrível preço em torno dos 25€.
As gravações de Edith Piaf estenderam-se pelos anos 40, 50 e início dos 60. Era uma época em que, com excepção dos EUA e, eventualmente, da Grã-Bretanha, não havia ainda álbuns
LP. O formato dominante era o EP de 78rpm, que permitia, no máximo 4 canções - duas de cada lado. Os primeiros álbuns apareceram, aliás, como compilações de EPs. Presumo, portanto, que Piaf não tenha álbuns LP originais. Para os artistas cuja obra gravada se encontra nestas circunstâncias as compilações têm maior importância e é pena que não sejam frequentes as que são feitas criteriosamente e com informações adicionais. Piaf, graças à projecção que tem, ainda assim é uma das excepções, pois, como referi, da sua obra existem duas compilações integrais e algumas compilações de média extensão e qualidade aceitável como é o caso desta.