quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

O Longo Relato do Horror

Martin Gilbert - A Segunda Guerra Mundial [Second World War (1989)]

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domingo, 15 de Novembro de 2009

Memórias na História

Eric Hobsbawm - Tempos Interessantes - Uma Vida no Século XX [Interesting Times - A Twentieh-Century Life (2005)]

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Eric Hobsbawm é um famoso historiador, autor de A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Extremos - tríptico que vai desde finais do século XVIII até aos tempos actuais. Outras obras suas, como Primitive Rebels (sobre a origem da Máfia) e The Jazz Scene, atestam também o seu interesse por temas originais. Além disso, escreve de forma atractiva.
Hobsbawm foi sempre comunista e ainda reivindica sê-lo, o que suscita um lastro sensacionalista nos media. É, enfim, o estranho caso do velho historiador que é comunista e inglês, ainda por cima, acrescente-se... sir. É com este estereótipo que é introduzido ao grande público. Não se esquivando, Hobbsbawm reserva nestas memórias muitas reflexões sobre a sua condição de comunista. Regra geral, a análise concreta do comunismo é correcta e em questões polémicas não se exime à postura de honestidade intelectual. Com algum pesar, é certo, reconhece que foi uma coisa medonha (nunca utiliza este termo ou algum análogo, note-se). É o que faz em relação ao estalinismo, à invasão da Hungria e à sua experiência de uma visita à União Soviética. Porém, não retira as conclusões lógicas que daí decorrem. Ou seja, reconhecendo a contra-gosto que as sociedades comunistas foram más, não toma o passo que tantos, chegando à mesma conclusão, tarde ou cedo, acabaram por tomar. Permaneceu. Mais, orgulha-se disso. Parece possuído pela obstinação (e gozo) do último dos mohicanos... Em última análise, diz que o faz por superior respeito pelo que representam os ideais da Revolução de Outubro. Porém, escusado será dizer que é criticado por muitos que entendem que, na melhor das hipóteses, o faz por pedantismo ou casmurrice. Contudo, nestas memórias há constantes provas de honestidade intelectual. Nas alusões aos ideais da Revolução de Outubro descortino incapacidade de renúncia à utopia que sustentou as grandes opções da sua vida, assim como um profundo inconformismo. Este posicionamento, mesmo em relação a uma experiência desacreditada, não é necessariamente desqualificador e pode ser útil. É óbvio que a sociedade globalizada em que vivemos tem gravíssimos problemas. Nada justifica, mesmo para os que, como eu, acreditam que este é o modelo menos mau de sociedade possível, um discurso triunfalista sobre o fim das ilusões utópicas do século XX.
Nestas memórias, Hobsbawm olha para a sua própria vida com olhos de historiador. Utiliza-a como um objecto de análise ao serviço da história. O subtítulo é, portanto, fidedigno. São cruciais os primeiros capítulos, sobre a sua infância e juventude, sucessivamente em Viena e Berlim. Nesta última cidade, ainda adolescente, faz-se comunista para sempre - não num momento e lugar qualquer, mas quando os nazis assaltam o poder, no convulsivo olho de furacão que era então Berlim. As descrições são elucidativas da dimensão do que lhe coube presenciar. A sua origem de judeu centro-europeu acabou por lhe dar a possibilidade de se mover em três culturas: judaica, germânica e inglesa. Quiseram as circunstâncias que esta última acabasse por se sobrepor. O jovem judeu errante centro-europeu, quase apátrida, tornar-se-ia um académico britânico. Mas, em certa medida, muito pouco british... As suas paixões saltam constantemente para o lado de cá da Mancha, para França, Itália e Espanha. Hobsbawm adora estes três países, sobretudo a França (é um francófilo, nostálgico da França jacobina...). A partir de experiências pessoais soltas, desenha uma síntese informal que é preciosa para compreender a evolução destas sociedades.
Em suma, a discussão sobre a reivindicação da condição de comunista não pode obscurecer a riqueza destas memórias que são um grande testemunho sobre o século XX.

sábado, 14 de Novembro de 2009

México Profundo

La Lupe - Taco Placero (2001)
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A notoriedade de Paquita la del Barrio adveio da interpretação de temas com letras que são um discurso de imprecações anti-machistas numa tónica desbragada, às vezes parodiando com alusões de cariz sexual. É curioso, pois parece que se transfigura quando canta, sendo, fora do palco, do mais discreto e convencional. Além desta nota pícara, há uma outra não menos marcante: o estilo musical que sustenta discurso e pose, o qual oscila entre cabaret e mariachi, mas sempre em plano demodé. A maior parte dos temas com letras pícaras são da autoria de Manuel Eduardo Toscano. Supõe-se que, para além da inspiração de autor, deve haver nas tradições populares mexicanas um vasto campo inspirador para tão corrosivo "escárnio e maldizer"... Mas Paquita insere-se também numa linha mais convencional como demonstra a parte, de facto, dominante no seu repertório, que é constituída por clássicos rancheros.
Este álbum inclui dois dos mais carismáticos temas de Manuel Eduardo Toscano - Taco Placero e Rata de Dos Patas - este último é um bizarro desfiar de insultos soezes. Do mesmo autor, deve-se também mencionar Nadie Perdona el Éxito, que é uma imprecação contra os invejosos. Contudo, sem perder de vista a mais-valia da chancela de Toscano, quem é apreciador de rancheras valorizará também a interpretação de temas convencionais. É o caso do clássico Paloma Negra, interpretado com a contundência expressiva que é bem peculiar a Paquita. O culto em torno desta diva, em contra-tendência com modelos dominantes, não deve, portanto, ignorar os seus intrínsecos méritos de intérprete de rancheras.


segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Deprimente Lucidez

Medina Carreira / Eduardo Dâmaso - Portugal que Futuro? (2009)
Deprimente não é a lucidez da análise, como é evidente. Deprimente é a realidade alvo da análise. As intervenções de Medina Carreira em programas televisivos têm sido contrastantes com o clima em que se tem vivido no país. Tais intervenções têm denunciado a política seguida pelos governos das duas últimas décadas. O problema, diz-nos o fiscalista, põe-se em termos económicos básicos: insuficientes taxas de crescimento económico; carga fiscal no limite; endividamento crescente do estado, das empresas e das famílias. Não se tem feito nada de consequente para inverter a situação. Pior: poucos têm consciência do problema. Os mais atentos têm referenciado Medina Carreira como alguém que se atreve a dizer "o rei vai nu".
Este livrinho em género de entrevista (o jornalista é Eduardo Dâmaso) permite conhecer mais detalhadamente a tese de Medina Carreira. Desde logo, ajuda a perceber que acredita no estado social e é, precisamente, para garantir a sua perseveração que lança alertas. A situação chegou, no seu entender, a um tal ponto de degradação que poder vir a gerar tensões sociais graves. Ou seja, ao contrário do que se possa pensar, não é um "abominável neo-liberal" - aliás, convém ter em conta o seu passado de ministro das finanças num governo de Mário Soares nos idos de finais dos anos 70. Diria que a sua visão é a de um homem de esquerda, mas moderado e realista (digamos, um verdadeiro social-democrata), avesso à imperante demagogia e que lança alertas para se salvar o essencial, prescindindo-se do acessório. Os seus apartes de censura aos políticos e mentalidades aparecem aqui integrados num esboço de análise da sociedade portuguesa e a perspectiva não se reduz, portanto, à denúncia populista. Contudo, não tem pejo em apontar como responsáveis, os sucessivos governos que temos tido. Pelo seu lado, a cidadania também não sai incólume, já que, por exemplo, não abdica dos "direitos adquiridos". Medina Carreira não utiliza muito as etiquetas esquerda e direita, até porque o seu discurso pretende ultrapassar a dimensão política. Tem, aliás, o cuidado de se apresentar como não político e é sempre com enfado que se refere ao mundo da política. Esta acaba por ser , no meu entender, a sua maior limitação. Entre outras coisas, a eficácia das suas propostas torna-se, assim, mais reduzida. É pena, pois este livrinho mostra-nos o que pode ser um excelente esboço de pensamento político para os problemas do nosso país - uma base para uma via de ruptura com o actual sistema. Seja como for, é, pelo menos, uma denúncia sustentada na lógica e na objectividade dos números. Não se pode ficar indiferente.
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sábado, 17 de Outubro de 2009

La Lupe: Vida de Melodrama

La Lupe (1939-1992)
La Lupe (Guadalupe Victoria Yoli Raymond) distinguiu-se em vários géneros latinos, do bolero à salsa. Tinha um estilo que saltava as convenções. Arrebatado e bravio valeu-lhe epítetos como os de Yiyiyi, Too Much... A escritora Susan Sontag definiu-a como "a primeira punk".
Teve uma vida de culebrón (telenovela). Nascida em Santiago de Cuba, filha de um modesto trabalhador da Bacardi, estudou para ser professora primária. Contudo, escapou a um modesto destino de docente perdida em alguma aldeia da montanhosa província do Oriente. Na verdade, desde cedo manifestou talentos artísticos que não conjugavam com a imagem de educadora, ainda por cima, com uma pose ostensivamente sensual... Quando Castro y sus barbudos desceram da Sierra Maestra já estava na vida artística profissional e havia adquirido notoriedade. De imitadora de Olga Guillot passou a cultivar um estilo pessoal que foi desenvolvendo com o tempo. O título do seu primeiro álbum é significativo: Con el Diablo en el Cuerpo. Em programas televisivos reforçou essa imagem, nomeadamente com os pitorescos vexames que infligia ao seu submisso pianista Homero, como descalçar-se e bater-lhe com um sapato.
Para o seu temperamento era difícil continuar a viver em Cuba. Seguiu a via de muitos artistas cubanos e exilou-se. Depois de uma passagem pelo México, estabeleceu-se em Nova York, onde relançou a carreira graças às possibilidades criadas pela voga dos ritmos latinos. Tornou-se conhecida de todos os públicos em shows televisivos. Explorou o filão das versões latinas de standards como Going out of my Head e Fever ou êxitos emergentes da pop, como Yesterday. Em finais de 60 actuava com a orquestra de Tito Puente e era conhecida como The Queen of Latin Soul.
Os excessos conduziram-na ao declínio a partir dos finais dos anos 70. Esse declínio está marcado por elementos anedóticos e dramáticos. Entre o anedótico temos um incontrolado arrebatamento de rasgar as vestes em certo show televisivo, em directo... Entre o dramático temos a adição a drogas e álcool. Uma tentativa de refazer a vida em Porto Rico apenas acabou por acentuar a decadência. Nos anos 80 levava uma existência miserável no Bronx, esquecida por todos. Viveu então uma rocambolesco cortejo de desgraças: um dia vai parar ao hospital espancada por um ex-marido; outro dia, ao pendurar umas cortinas, cai e fica temporariamente paralisada; outro dia, ainda, a sua habitação é palco de um incêndio. Recupera-se parcialmente de tanta desgraça e adere a uma seita evangélica denominada O Fim Aproxima-se! Nos últimos anos de vida, até um ataque cardíaco a ter fulminado, dedica-se a pregar o evangelho de porta em porta...
Antes de desaparecer, quando, ironicamente, já renunciara à vida artística em prol da regeneração espiritual, alguém a resgatou do esquecimento. Foi Pedro Almodóvar, no filme Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, colocando um dos seus temas na banda sonora. O tema é o bolero Puro teatro, do porto-riquenho Tite Curet Alonso. Foi o início do revivalismo de La Lupe. Em Espanha, a rádio começou a divulgar os seus velhos êxitos. Tornou-se, nos anos 90, efémero objecto de culto em certos meios.

Puro Teatro: O Bolero Hardcore (2)


Puro Teatro

Igual que en un escenario
finges tu dolor barato
tu drama no es necesario
ya conozco ese teatro.

Fingiendo,
que bien te queda el papel
después de todo parece
que esa es tu forma de ser.

Yo confiaba ciegamente
en la fiebre de tus besos
mentiste serenamente
y el telón cayo por eso.

Teatro,
lo tuyo es puro teatro
falsedad bien ensayada
estudiado simulacro.

Fue tu mejor actuación
destrozar mi corazón
y hoy que me lloras de veras
recuerdo tu simulacro.

Perdona que no te crea
me parece que es teatro.

(Hablado)
Y acuerdate que segun tu punto de vista,
yo soy la mala.

Teatro,
lo tuyo es puro teatro
falsedad bien ensayada
estudiado simulacro.

Fue tu mejor actuación
destrozar mi corazón
y hoy que me lloras de veras
recuerdo tu simulacro.

Perdona que no te crea
me parece que es teatro
perdona que no te crea
lo tuyo es puro teatro.
Tite Curet Alonso

Puro Teatro: O Bolero Hardcore (1)

La Lupe - Laberinto de Pasiones (1992)
CD - Apreciação: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Este álbum foi editado no mercado espanhol em plena onda revivalista de La Lupe, onda que foi impulsionada por um dos filmes de Almodóvar, que incluiu o bolero Puro Teatro na banda sonora. Tem um texto do jornalista Diego Manrique que resume a acidentada vida da artista. É uma antologia que inclui os temas mais conhecidos: três boleros de Tite Curet Alonso: Fijense, La Tirana e Puro teatro. Destaque-se ainda o bolero Que te Pedí, dois bogaloos (Fever e Que Bueno Boogaloo), assim como a famosa guajira Guantanamera. Acima de todos paira, de facto, Puro teatro. Discorre sobre uma letra que se desenvolve como insulto inspirado pelo despeito amoroso, ao estilo canalha de Curet Alonso. Em cima disso (que já não é pouco...) temos a interpretação arrebatada, bem ao jeito de descaradona mulata cubana e que consiste numa tonalidade vociferante que carrega as cores de denso melodrama. Os boleros de La Lupe são de uma classe especial: violentos, febris. Puro Teatro é o melhor exemplo. É, digamos, o must do hardcore bolero.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Fim de Ciclo Eleitoral: Saldo

As eleições europeias, com tanta abstenção, amplificaram a voz dos descontentes. As legislativas e autárquicas acabaram por corrigir o cenário. Findo o ciclo eleitoral, o saldo é menos desfavorável para Sócrates do que se chegou a dar como certo. Sai com menos perdas do que o PSD. A postura séria de Manuela Ferreira-Leite não obteve os resultados que merecia. No PSD abre-se assim, de novo, caminho para derivas populistas, a não ser que haja alguma agradável surpresa (quem me dera Rui Rio...!). Por outro lado, quanto a Cavaco Silva na presidência, a inépcia recente não o coloca em condições de prestar ajuda eficaz.
Portanto, sucede que, mesmo depois de tantos ataques, infelizmente, Sócrates ainda está de pé. Logo, sai vencedor. Em certa medida, reforça a sua autoridade. É certo que fica constrangido a governar em minoria, mas na certeza de que as oposições, se se atreverem inviabilizar a governação, abrem via directa para eleições antecipadas. Nesse cenário, sabe-se que o eleitorado costuma castigar quem derruba e recompensar a vítima. Em todo o caso, é provável que reentre mais encostado à esquerda, relançando causas fracturantes que seduzem a esquerda alta e que... colidem com as bases da civilização (esta última inquietação, desgraçadamente, só é partilhada por mais meia dúzia de lunáticos demodés...).
Entre os pequenos partidos só há um vencedor: o CDS-PP. Aliás, podem abrir-se horizontes ainda mais risonhos para Paulo Portas se campear prolongada confusão no PSD. O Bloco de Esquerda inchou com o voto de protesto de muito professorado (não tanto como cheguei a temer). Seja como for, as recentes eleições autárquicas deixaram a nu a precariedade de tal crescimento. O PCP perdeu em todas as frentes - é, enfim, o caminho inexorável da decadência.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

O Video de Maitê

É certo que o video de Maitê é um pouco ignóbil, um tanto boçal, mas parece-me que, absurdamente, se está a transformar o assunto em casus belli. Que exagero! Além disso, Maitê já apresentou desculpas e, por outro lado, aludiu algo que talvez não deixe de ser pertinente: uma certa falta de humor entre nós... Esta hipersensibilidade nacional é sintoma de um incurável complexo de inferioridade.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

El Cantante de los Cantantes

León Ichaso - El Cantante (2006)
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El Cantante
, como filme, não é nada de especial, mas vale pela música e pela informação. Essa bela estampa de mulher que é Jennifer López e o seu marido Marc Anthony não têm aqui grandes desempenhos. A realização também não parece acertada no ritmo da acção. A história é um pouco desconexa e tudo redunda num videoclip contínuo. Até certo ponto ainda bem, pois a música é boa... Trata-se de salsa. Marc Anthony é um bom sonero (cantor de salsa) e a produção musical corre por conta de Willie Colón, figura maior do universo salsero, que escolhe um repertório magnífico.
Sucede que o filme propõe-se reconstituir a vida daquele que foi o maior
sonero de sempre, Héctor Lavoe. Era porto-riquenho radicado em Nova York desde meados dos anos 60. Como vocalista da banda de Willie Colón tornou-se um mito. De tal modo que foi apodado El Cantante de los Cantantes. Aliás, um acerto desta edição em DVD é pôr na banda sonora do menu a voz o próprio Lavoe cantando Periódico de Ayer. O filme volta a pô-la no genérico final com o mesmo tema e outros também famosos. Pelo meio ficam as versões de Marc Anthony.
Mas o mito não se deve apenas a dons artísticos. Lavoe teve uma vida trágica. Morreu de
SIDA, no final de uma decadência marcada por consumo de drogas e tentativas de suicídio. O filme não consegue atingir densidade dramática ao abordar esses momentos. Por outro lado, Marc Anthony, no papel de Lavoe, faz o que pode para se parecer com ele, mas a sua voz não se aproxima, evidentemente, daquele timbre inconfundível, além de que tem uma figura que não se ajusta à sua imagem decadentista. Em todo caso, registe-se a intenção de homenagem, a boa música e o contributo para se entender o caldo de cultura de onde emerge a salsa, essa simbiose de ritmos de Porto Rico e Cuba com epicentro em Nova York.

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Camarón, uma Lenda

Camarón de la Isla - La Leyenda del Tiempo (1979)
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Camarón de la Isla (José Monge Cruz) foi a última grande figura do flamenco. A sua morte prematura cortou abruptamente uma carreira fulgurante, alcandorando-o à categoria de mito. Tinha uma voz genuinamente flamenca, bem servida de garra. Além disso, a sua carreira assinalou alguns marcos na evolução do flamenco. Com efeito, esteve presente em projectos inovadores, ao lado de guitarristas como Paco de Lucía e Tomatito; deu a sua voz à experiência de pôr poemas de Federico García Lorca em acordes flamencos, como sucedeu com La Leyenda del Tiempo, o tema que dá título a este álbum. É uma gravação emblemática na afirmação do nuevo flamenco, pelo que significou de ruptura em arranjos instrumentais. Se já anteriormente, com Paco de Lucía, havia sinais inovadores, sob a orientação do produtor Ricardo Pachón tem aqui ousadias radicais. Envereda-se por uma linha de fusão com rock, que doravante não voltará a ser retomada tão nitidamente. Além do já mencionado tema, destaque-se ainda Volando Voy, uma espécie de rumba psicadélica e o mais tradicionalista mas intenso Bahía de Cádiz, umas alegrías cuja contida modernidade é conferida pelo teclado de órgão e uma bateria sublinhando o compasso das palmas.

segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Ceará - Andaluzia

Raimundo Fagner - Traduzir-se, Traducir-se (1981)
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Que relação pode haver entre o Brasil e o flamenco? É óbvio que pouca. Contudo, o cearense Raimundo Fagner faz aqui um álbum que pode ser catalogado como nuevo flamenco. De facto, em rigor, isto é válido para cerca de metade dos temas. O resto é um repertório mais próprio de Fagner, mas com uma incursão invulgar: o poema de Florbela Espanca, Fanatismo, que, aliás, é o tema de abertura e com aparato...
É um álbum mestiço, mas dominado por um astral flamenco, eloquentemente enunciado pela pose de Fagner na foto da capa, com sombrero andaluz, em plena Plaza Mayor de Madrid (só faltava em vez do cigarro, um puro...). Parte dele foi produzido e gravado em Madrid, com a participação de Mercedes Sosa, Manzanita, Joan Manuel Serrat e Camarón de la Isla. Todos interpretam duetos com Fagner em temas marcantes das suas carreiras: Mercedes Sosa - Años (de Pablo Milanés); Manzanita - Verde (de Lorca); Serrat - La Saeta (de Antonio Machado); Camarón - La Leyenda del Tiempo (de Lorca). Diga-se que algumas destas versões talvez superem os originais... Mas não fica por aqui. Trianera é um tema de ressonâncias flamencas que se estende por mais de sete minutos, quase em roda livre.
Fagner nasceu no Ceará e é filho de um libanês e de uma índia. Para o Nordeste nos finais do século XIX e inícios do século XX afluiram imigrantes da Turquia, Síria e Líbano, popularmente conhecidos como turcos ou mascates (não esquecer seu Nacib, de Gabriela...). O cantor justifica a sua atracção pelo flamenco, pela ascendência paterna. É uma crença muito difundida essa, a das influência árabe no cante, mas, na verdade, ela foi menor do que se possa crer... O certo é que a sua voz desgarrada se adapta bem ao género e que esse sua aptidão e gosto proporcionou um álbum original.

sábado, 19 de Setembro de 2009

Doce Viver

Emílio Santiago - Bossa Nova (2000)

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A música brasileira teve sempre ampla difusão por cá. Contudo, a popularidade alcançada deste lado do Atlântico nem sempre é proporcional à da origem. É este o caso de Emílio Santiago, um intérprete negro. Apesar das fortes influências africanas na música brasileira, os negros não abundam tanto quanto se poderia esperar na
MPB.... Nos anos 60 e 70 destacou-se Jair Rodrigues; nos anos 70 e 80, Milton Nascimento e Gilberto Gil; nos anos 80 e 90, Djavan. Em todo o caso, estes protagonistas não têm nas suas vozes o travo distintivo da negritude como sucede com Emílio Santiago. Ora, a voz quente e aveludada deste cantor combina magnificamente com a bossa nova e o samba-canção e não surpreende, portanto, que no seu repertório haja constantes incursões nestes géneros.
Nos finais do anos 80 e início dos anos 90 Emílio Santiago editou vários álbuns que constituíram a série Aquarela Brasileira, onde se espraiou por clássicos da bossa e do samba-canção. Foi um filão nostálgico, comercialmente compensador. Sucede que esses álbuns eram interessantes pela matéria-prima e pela voz, mas algo limitados pelo conceito e orquestrações. A sistemática utilização do medley e de arranjos convencionais eram a sua imagem de marca. Em contrapartida, os últimos álbuns já reflectem conceitos de produção mais refinados. É o caso deste. Continua a explorar a linha nostálgica, mas de um modo temático coerente, orientado para a bossa-nova, com orquestrações sofisticadas que envolvem da melhor forma o veludo quente da voz. São todos temas conhecidos e alguns consagrados. Não se pretende fazer nada de original, mas apenas refazer pela enésima vez, com virtuosismo e glamour, a conhecida receita dos génios criadores da bossa-nova, mas com uma voz que acrescenta algo... É uma fórmula que permite saborear o que se pode traduzir pelo título da mais soberba das peças aqui incluídas, Doce Viver, de Nelson Motta.



sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Brasil, Anos 50


Uma velha revista de 1959 deu-me, era eu miúdo, uma imagem do Brasil que conservei para sempre, apesar de contraditada pelo que fui sabendo ao longo da vida. Como revista de propaganda, enaltecia o país, através de dados estatísticos e fotografias. Mas tinha material informativo que valia por si. Gostava dessa informação e, por outro lado, impressionavam-me as imagens das cidades e, em particular, dos arranha-céus. As páginas finais sobre Brasília, em vias de de se tornar a nova capital, reforçavam a imagem de modernidade. Numa página uma foto do Palácio Presidencial da Alvorada, noutra, a foto do Presidente Kubitschek de Oliveira a assinar a lei que fixava a data da transferência da capital. Era o remate de uma ideia de progresso. Não é tão despropositada esta visão. De facto, do que fui aprendendo ao longo da vida sobre o Brasil retive um dado. Os anos 50 e a primeira metade dos anos 60 foram anos felizes para este país. Havia uma classe média relativamente próspera, a liberdade própria de uma sociedade aberta e tolerante e optimismo. Não por acaso, talvez, foi o tempo da 1ª Copa do Mundo (a da Suécia) e do aparecimento da Bossa Nova. Dir-se-ia que, desde esse tempo, houve um retrocesso...

domingo, 6 de Setembro de 2009

Um Outro Brasil

Erico Veríssimo - O Tempo e o Vento (1949)

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Em finais dos anos 80 a TV Globo realizou uma excelente série baseada neste romance. É a mais conhecida obra de Erico Veríssimo - uma história que se desenrola ao longo de gerações, desde finais do século XVIII até ao século XX. O tema é a construção da sociedade gaúcha, ilustrada numa localidade do interior montanhoso do estado mais meridional do Brasil, Rio Grande do Sul. Este é um Brasil menos conhecido, diferente do Brasil tropical e colonial. Foi construído numa zona de fronteira, em que os obstáculos eram de natureza humana e não naturais. Tem afinidades com o Uruguai e Argentina e algumas marcantes especificidades. Juntamente com o vizinho estado de Santa Catarina e com o Paraná faz parte da região mais europeia do Brasil. A imigração veio em grande número da Itália e Alemanha. Se exceptuarmos certas zonas do litoral (Canoas, por exemplo), a imigração portuguesa é menor e quase exclusivamente açoriana. Não por acaso foi aqui que surgiu a mais séria tentativa separatista - a Guerra do Farroupilha, na qual participou o italiano Garibaldi, herói do Rissorgimento.
O romance descreve-nos uma sociedade violenta que se forjou a luta individual contra circunstâncias adversas, como as guerras fronteiriças entre o poder colonial espanhol e o poder colonial português. A criação de gado foi o pilar em que assentou esta cultura, conhecida de ambos os lados da fronteira como gaúcha. O cenário e as situações fazem lembrar o Far West. À rudeza dessa forma de vida acresce uma peculiar mestiçagem, onde os índios, preservados em missões jesuítas, tiveram alguma importância. Este romance introduz-nos nesse outro Brasil, que chega até nós por via dos popularizados restaurantes de rodízio. Já agora, chimarrão é o nome de uma bebida genuinamente gaúcha, um dos seus ex-libris identificadores.

sábado, 5 de Setembro de 2009

Testemunho da MPB (2)

Vários - Noites Tropicais (2000)

CD - Apreciação: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Noites Tropicais tem um correspondente em duplo CD. É a melhor antologia da MPB que conheço - são muitos os grandes temas aqui incluídos, os quais cobrem todas as fases e tendências. Apropriadamente o primeiro tema é o mítico Desafinado, de João Giberto, mas, de facto, ao longo dos dois CDs há oportunidade para nos espraiarmos pelas várias tendências da MPB e para, inclusivamente, nos adentramos em algo muito menos interessante, mas importante, o rock brasileiro. Além do mais, a apresentação é soberba e está graficamente ajustada ao livro. O objectivo de funcionarem em complemento foi atingido.

Testemunho da MPB (1)

Nelson Motta - Noites Tropicais (2000)
Livro - Apreciação: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Nelson Motta é um jornalista e escritor brasileiro que participava num programa de tertúlia de Rede Globo, Mannattham Connection, feito a partir de Nova York. Com mais dois compatriotas abordavam temas variados, tendo como referência o facto de estarem num local privilegiado para observar o mundo. Chegou a ser emitido no canal que então a Globo tinha na TV Cabo. Poucos programas pude ver, mas deu para perceber a verve e argúcia dos tertulianos. Algumas crónicas subordinadas ao mesmo título do programa foram também publicadas no Diário de Notícias.
Nelson Motta é muito conhecido, pois tem uma longa trajectória no mundo artístico, nomeadamente como produtor musical. Este livro de memórias reporta uma experiência ímpar nas origens e desenvolvimento da Música Popular Brasileira (MPB), desde a Bossa Nova até ao rock autóctone, passando por variadas tendências e movimentos. Privou intimamente com alguns dos maiores vultos (foi, por exemplo, amante de Elis Regina) e dá-nos informações que abrangem aspectos da suas vidas íntimas, sem cair na futilidade. Não é frequente que protagonistas deste tipo se disponham a tais testemunhos. É, portanto, um testemunho de privilégio que nos introduz no cerne da história da MPB. Muito em particular, faz-nos sentir o ambiente que nos finais dos anos 50 e ao longo dos 60 criou a Bossa Nova.